Para mim Fuerteventura foi um verdadeiro oásis; um oásis onde meu espírito bebeu as águas vivificadoras, e de onde saí refrescado e fortalecido. Com estas palavras Unamuno descrevia a mais árida das Ilhas Canárias. E não deixa de ser um paradoxo, sobretudo quando sua estadia na mesma se deve ao desterro ao qual foi condenado por Primo de Rivera, como castigo pelo seu senso crítico e sua incansável busca da verdade.

Unamuno passou cerca de quatro meses em Fuerteventura; um curto período de tempo que, no entanto, bastou para se apaixonar de seu mar, seus camelos, suas palmeiras e, sobretudo, de suas gentes: esses “nobres majoreros” para os quais dedicou mais de um verso em sua extensa obra.

Deste modo, uma das melhores formas de percorrer a ilha é através do escritor, visitando aqueles lugares em que, como ele mesmo afirmou, encontrou calma e sossego. Ninguém melhor que ele para nos ajudar a descobrir “este pedaço da África saariana lançado ao deserto”.

Seguindo seus passos, nossa primeira parada deve ser, inescusavelmente, o antigo Hotel Fuerteventura onde Unamuno residiu de março a julho de 1924. Transformado agora em casa-museu, este edifício localizado em Puerto del Rosario recolhe objetos de grande valor histórico e documental, como a cama e a mesa do escritor, ou várias fotografias e textos manuscritos durante sua estadia na ilha.

No poemário “De Fuerteventura a Paris”, Unamuno nos descreve alguns de seus espaços favoritos do lugar que foi seu lar durante o exílio: o povo encantador de Betancuria, cujos gerânios vermelhos ressaltam nas paredes brancas das casas; a vulcânica Península de Jandía; ou a igreja de Pájara, cujo portal chamou sua atenção ao lembrá-lo, de alguma maneira, dos ornamentos típicos da arquitetura inca e asteca.

Talvez o lugar que esteja mais ligado à memória do escritor seja Montaña Quemada: um lugar inóspito onde, como o próprio Unamuno confessaria ao seu amigo Ramón Castañeyra, gostaria de ser enterrado. Ali, um monumento do escultor Juan Borges Linares, ainda recorda sua memória.